GRAVURA A TOPO

HISTÓRIA, PRODUÇÃO E APLICAÇÃO À PUBLICAÇÃO ILUSTRADA

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Peter Bosteels

Burilar…

Ao analisarmos alguns dos exemplos da revista Occidente do acervo da biblioteca da FBAUP, entramos num contexto colaborativo de edição que transformou e inovou a percepção do objeto editorial português entre o fim do século XIX e início do séc. XX. A proposta oficinal da revista ilustrada sobre o comando notório do gravador Caetano Alberto da Silva e o vanguardismo das propostas gráficas e ilustração de Manuel Macedo, entre outros, contribuíram para o repensar do suporte editorial como um artefacto gráfico ilustrado total.

Um pensamento global que uniformiza e oferece consistência gráfica, agregando diferentes autores com práticas distintas na construção do signo verbal e visual se materializam ao longo das páginas através da fluidez de soluções compositivas, legitimam o carácter autoral de gravadores e ilustradores e ao mesmo tempo constroem a coerência do projecto gráfico.

Aos nosso olhos, o Occidente é um artefacto arqueológico, a ser analisado segundo uma perspectiva de leitura heurística em que os seus diferentes signos fornecem estratégias e recursos para a criação de significados que advém da sua estrutura gráfica, das ilustrações, dos processos oficinais e das técnicas de impressão indiciam mudanças sociais, culturais, políticas e tecnológicas. Características estas, que consideramos existirem de forma assumida no pensamento subjacente à Revista Occidente enquanto artefacto arqueológico.

A Revista Occidente, é um repositório de informação que espelha, constrói e informa sobre as suas origens, razões pelas quais consideramos relevantes um regresso a este objeto editorial. Um reencontro que pretendemos ser multidisciplinar e recorre a diferentes contributos, do design gráfico, da ilustração ou da gravura, os quais, numa fase inicial operam na mimetização da sua forma de pensamento e prática da origem do Occidente. E numa etapa posterior será aplicada um contexto de investigação particular contemporâneo.

Nesta fase, iremos operar recorrendo ao património material e imaterial da Casa Soleiro, situada na rua da Chã, no Porto. São várias as intersecções que podemos realizar entre a Revista Occidente e a Casa Soleiro, se por um lado nos interessa a reflexão sobre o carácter oficinal e a cultura de especialização que ambos os exemplos nos oferecem e definidores para a construção identitária. Por outro lado, ao compreendermos e aplicarmos o seu modus operandi e a especificidade de ambos os contextos, encontramos diferentes contributos para a reflexão do presente momento.

Nomeadamente, a aparente incapacidade colectiva e individual de resistir ao desaparecimento de determinados contextos e práticas oficinais e espaços comerciais no contexto nacional e em particular do Porto, cuja identidade e charme constituem a memória cultural e social da cidade, que julgamos estar a ser apagada de forma avassaladora.

A implosão deste património, que metaforicamente relacionamos entre uma revista ilustrada e uma loja de comércio tradicional especializado, é o pretexto para a investigação prática de como as mudanças tecnológicas da produção de imagem e suportes gráficos editoriais, a par da evolução social, económica, turística e política da cidade como factores contribuem para a perda da sua identidade e consequente perda de distinção no contexto nacional e global.

A resistência é entendida ao longo deste projecto como correspondência ao desígnio da evolução, sem uma ruptura completa com a tradição, com um manter do cordão umbilical que lhe dá alicerces para a produção de novas soluções. Um ponto intermédio entre a tradição e a ruptura que possa designar, simultaneamente, uma coabitação entre práticas gráficas de matriz oficinal e tradicional e os desígnios da modernidade.

 

Programa

O buril é a primeira ferramenta a ser usada neste exercício de insistência e compreensão. As ilustrações impressas nas revistas periódicas até ao fim do século XIX, altura em que a gravura chimica começou a ser usada como processo privilegiado e mais económico para reproduzir imagens no papel, eram interpretadas a partir deste instrumento único de precisão, mantido ainda na zincogravura nas designadas sessões de retoque.

Desenhava-se, primeiro do natural, da imaginação, de memória e mais tarde a partir da fotografia, e o gravador, num trabalho de colaboração, abria o desenho sobre o bloco de buxo, essa madeira dura cortada a topo. A burilar agora, iremos olhar para as páginas impressas das revistas ilustradas, conhecer os seus géneros, autores, apreender afinal como trabalhavam estes autores, com que modelos, com que professores.  Num ensaio de reconstituição do ambiente oficinal que se viveu na ilustração portuguesa durante várias décadas, iremos usar a oficina de gravura a topo como a antecâmara que prepara e permite entender o contexto de práticas gráficas de matriz oficinal e tradicional aplicados à ilustração de periódicos no século XIX.

No decorrer do workshop parte-se para conhecer a cultura material e oficinal em torno da gravura a topo enquanto procedimento integrado num conjunto de práticas oficinais, interligadas, na qual consideramos as etapas que antecedem o corte e preparação do bloco de bucho, a produção da almofada de couro, a preparação das ferramentas e seus usos, as técnicas de desenho e de transporte para a matriz, o passo a passo e a sintaxe adotada na ilustração da produção tipográfica nacional, tintas e processos de impressão.

Dia 29 de março Março, 16h, FBAUP, por Graciela Machado, Arlindo Silva e Peter Bosteels, Rui Vitorino dos Santos.

O contexto da publicação periódica em Portugal e uso da técnica de gravura a topo no final do século XIX e inicio século XX.

Abordagem aos contextos oficinais, e testemunho de Peter Bosteels como autor e académico.

Abordagem à prática, com breves exercícios de incisão, reconhecimento de madeiras europeias e suas características, e impressão manual.

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