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   «Num amplo espaço, bem arejado e bem banhado da luz que mais lhe convém, acham-se dispostas, em lugares previamente marcados, as diferentes seções destas belas oficinas. Um grupo de máquinas, perfeitas tanto quanto hoje se conhece (e algumas ali há que só a casa Marques Abreu as possui entre nós) esperam, como obreiros infatigáveis, o aceno de recomeçar».

Manuel de Moura, Fevereiro de 1915.

Um século volvido sobre esta observação, dirigida por Manuel de Moura aos ateliers de fotogravura Marques Abreu — à época instalados na Avenida Rodrigues de Freitas, 310 no Porto — os Núcleos de Investigação em Desenho e Arte Intermédia do I2ADS (Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade), sediado na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, propõem-se pensar e rever a obra deste autor com a concretização de um projecto editorial e uma exposição em torno da experimentação gráfica e fotográfica por ele consolidada.

 

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Marques de Abreu foi um destacado fotógrafo, gravador e editor portuense que marcou o panorama das artes gráficas e editoriais em Portugal, entre as décadas de 1900 e 1940, sendo responsável por importantes levantamentos de arte e arquitectura portuguesa, na tradição das primeiras missões fotográficas, e prestando uma contribuição fundamental para o desenvolvimento e aplicação da fotozincogravura, que começou a fazer, ainda em 1893, considerada por ele como capaz de produzir cópias melhores que os originais: «o fotogravador, depois de se utilizar deste meio, como dele se utilizam também a fotolito e a heliogravura, embora de modo um pouco diferente, tem ainda o trabalho de gravar a imagem na chapa de metal, por meio de reagentes, e é nesta última operação que o fotogravador pode obter chapas capazes de dar imagens impressas com uma riqueza de modelação perfeitíssima superior até à dos originais.» (Marques de Abreu, 1945)

Da sua extensa obra bibliográfica importa salientar a estreita relação que manteve com o historiador Joaquim de Vasconcellos para o estudo da arte e da arquitectura Românica em Portugal com a publicação do álbum Arte Românica em Portugal em 1918, também as revistas sem vocação de reportagem em que colaborou ou editou como Ilustração Transmontana, Ilustração Moderna ou Arte – Archivo de Obras de Arte — e, noutro sentido, os álbuns Álbum do Porto (1917) e Vida Rústica – costumes e paisagens (1927) que melhor demonstram a passagem deste autor entre a fotografia descritiva e naturalista do séc. XIX e a fotografia pictoralista da década de 1910.

 

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Lázaro, o título escolhido para o projecto, e que evoca em simultâneo o local de trabalho de Marques Abreu (Jardim de s. Lázaro) e o personagem bíblico que por milagre renasce, é uma publicação/exposição que — através do convite a fotógrafos, arquitectos, ilustradores e escritores — procura fazer uma pequena história das imagens impressas num efectivo encontro entre a gravura, a fotografia e a literatura, com o intuito de celebrar o processo e a herança gráfica e fotográfica de Marques de Abreu, quer na sua evidente relação com a cidade do Porto quer, especificamente, pelas ligações de proximidade que manteve com a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto[1] que em Junho de 1955, lhe dedica a sua primeira e única exposição retrospectiva Marques Abreu e a sua Obra.

[1] A Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto possui um acervo de zincogravuras recentemente inventariadas que integram algumas das matrizes com o selo Marques de Abreu. Desta colecção, identificada durante o processo de tratamento e organização do arquivo concluído em 2013, constam um grande número zincogravuras seladas e conservadas nos papéis originais. Uma parte da mesma são reproduções de obras da História internacional da Pintura, Escultura e Arquitectura realizadas para fins pedagógicos.

Definiu-se como ponto de partida deste projecto uma selecção de dez imagens fotográficas do autor, reproduzidas em fotozincogravura no Álbum do Porto, clichés e simili-gravuras de Marques de Abreu, editado pela empresa gráfica a universal em 1917, através da qual se privilegiará a realização de uma deriva experimental — gráfica e fotográfica — em torno da cidade, dos livros e das impressões e reproduções imagéticas, docuficcionais, que nela se potenciam.

Na execução da publicação serão integradas e ensaiadas distintas tecnologias de impressão (desde a zincogravura, fotolitogravura, etc…), combinando um método de arqueologia tecnológica, já iniciada no âmbito do projecto Pure Print, para a criação de um ensaio poético visual, atento às variações de forma da imagem impressa e às alterações de significado nelas implícitas.

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Edifício dos ateliers de fotogravura Marques Abreu tal como fotografado em 1915 / Biblioteca Municipal do Porto / Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto